Crônica Do Encontro

Era uma tarde ensolarada dessas que dá pena ficar em casa. Pós ou quase pós pandemia, depende do ponto de vista.

Aquele ritual para sair de casa – kit sobrevivência: mochila, necessárie com remédios diversos, álcool em gel, máscara reserva, guarda chuva, blusa de frio, carregador de celular, caderno e caneta.

Nunca se sabe quando vem uma idéia, inspiração, insight ou um chamado divino.

Estou há mais de um ano em home office. A editora fechou fisicamente forçando todos ficarem em casa temporariamente… O tempo passou e de temporariamente faltou o tempo e sobrou a mente. O provisório virou permanente e agora meu escritório se resume a qualquer lugar com internet. Pego meu “kit” e saio em busca de um lugar tranquilo para trabalhar.

Sol a pino, temperatura amena e nenhuma nuvem no céu. Na rua os carros passam devagar e as pessoas caminham rápido parecendo não saber pra onde e sem notar a beleza do dia. São tempos difíceis.

Perambulando um pouco observando as coisas, na avenida em que estou passando tem um rio e dentro desse rio um homem caminhando sobre as pedras pela água. Me parece perdido, procurando algo… Ao chegar mais perto noto que é um homem em situação de rua. Começo a pensar em como as coisas são irreais, eu preocupada em achar um lugar tranquilo para trabalhar e aquele homem o que procura? Qual sua preocupação? Será que já fez alguma refeição hoje? Será que alguém notou a sua existência além de mim? Por que essas pessoas são invisíveis? Nesse momento eu paro e o observo e logo uma sensação de impotência percorre todo meu ser e começo a divagar sobre os rumos do país e do mundo no pós pandemia.

Uma buzina de ônibus me tira desse pensamento e continuo a andar. Procuro olhar em minha volta coisas bonitas. Vejo flores, gente passeando com cachorro, casais de mãos dadas e penso que tudo vai dar certo.

Ando por mais umas quadras e paro em frente a uma cafeteria com uma estante cheia de livros. Não preciso dizer que deu match! Olho para a placa e o nome é Amélie, adorei a referência.

Entro e sento em um canto onde consigo observar tudo o que acontece na cafeteria, desde o operacional até os clientes. Esse canto tem tomada perto e uma certa privacidade. Uma garçonete simpática vem tirar meu pedido, peço um café coado e uma fatia de bolo de chocolate com calda branca e começo a colocar o “escritório” na mesa.

Abro a caixa de e-mails e me deparo com mil cobranças e demandas. Como ser criativa sob pressão? Também não sei! Pego meu caderno e caneta e tento organizar meu dia por ordem de prioridade.

Estou revisando um livro sobre o amor na era digital, achei o tema interessante então estou me divertindo. Paralelo a isso estou no maior bloqueio criativo que já tive em minha carreira. Desde que a pandemia começou não consegui criar mais nada e nunca tive tanto medo da folha em branco. Começo a pensar em mil maneiras de tentar reverter isso.

Tento me concentrar e percebo que um casal de idosos entra na cafeteria. Ele um senhor de boina e bengala segurando na mão uma caipirinha de caju e ela uma senhora de vestido florido com uma sombrinha na mão e lenço na cabeça falando – Ô benhê, depois dessa você vai tomar um café beeeeeeeem forte pra gente voltar pra casa. Meu coração nessa hora se encheu de amor. O senhor olha com ternura para sua amada e diz – Come teu bolo que agora eu vou pedir a saideira!

A garçonete chega na mesa para atender o casal com um sorriso lindo e largo e diz – O de sempre casal? E em coro eles respondem – Sim querida! O de sempre!

E eu retorno para meus pensamentos com meu bloqueio criativo e penso que uma bela tarde ensolarada merece ser escrita com uma linda história de amor! ❤